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O dia em que a chama apagou


Dia de refletir. Dia de pensar.


<O dia em que a chama apagou

Quem gosta de esporte, seja por praticá-lo ou por paixão, já deve ter reparado uma série de siglas ao lado do nome dos atletas que começam com a letra D e mais duas letrinhas e que abreviam uma série de situações de competição. O DNS, por exemplo, significa “did not start”, ou seja, aquele atleta não largou. No DNQ, o penoso “did not qualify”, ou seja, largou mas não se classificou entre os primeiros para uma próxima fase, por exemplo. E meu tema de hoje versa sobre o misterioso, angustiante e decepcionante muitas vezes: DNF, o “did not finish”, ou, trocando em miúdos, o verdadeiro “largou mas não chegou”.

Vários são os motivos de um DNF.

Quem conseguiu largar e chegar em todas as provas em que participou? Se vc é um desses, tiro o chapéu pra vc.

Os mais comuns geralmente estão relacionados aos abandonos involuntários, seja por falha mecânica de algum equipamento ou em decorrência de algum fator relacionado à saúde do atleta, como lesões, desmaios e etc.

Mas um dos DNF mais intrigantes no esporte são os abandonos voluntários, sem falha mecânica e sem um impedimento fisiológico aparente.

Antes de mais nada, gostaria de dizer que sou um crítico ferrenho aos abandonos voluntários nessas circunstâncias. Isso não quer dizer que também não os faça. Aconteceu hoje. Pode ser que aconteça mais pra frente. E por isso hoje falo sobre ele.

Fazendo uma análise superficial desses abandonos, é preciso entender em que momento a mente, que é a grande comandante da “máquina humana” deixou de ordenar seguir em frente e ordenou parar. Por que um atleta que se predispôs a se inscrever em uma prova, acordar cedo, preparar seu material, sair de casa, aquecer e largar, em determinado momento apaga essa chama e opta pelo caminho mais fácil? Parar sem completar.

No profissional há uma grande discussão envolvendo os abandonos relacionadas ao calendário do atleta. A justificativa é a de que não vale a pena completar uma prova somente por completar, já que, caso algo tenha dado errado (quebra de ritmo ou não cumprimento de alguma meta), mais vale descansar para a próxima e treinar no dia seguinte do que se cansar ainda mais sem muito propósito.

Mas mesmo esses abandonos de profissionais nos intrigam. Dão aquela velha impressão do menino dono da bola da rua de cima. Só deixa jogar se for com o melhor time e se ele vencer.

Mas excluindo os abandonos involuntários e os profissionais, passei o dia refletindo sobre os amadores. Por que cargas d’água um amador voluntariamente abandona uma prova?

Muitos diriam que o principal motivo seria a dor ou a tolerância a dor. Uma vez atingido esse limite, o cérebro começa a negociar o abandono para cessar imediatamente aquele sofrimento. Mas se estamos falando de amadores e praticantes do esporte por prazer e paixão, não bastaria diminuir o ritmo, entrar em outra zona, zerar aquele desconforto e seguir em frente?

Simples assim seria se a mente humana não fosse um emaranhado de conexões em forma de labirinto, cheias de expectativas, aspirações, orgulhos, decepções, crenças e emoções. Essa arte não é tão simples.

Reduzir para cessar um desconto é ver suas expectativas de resultado irem para o ralo. Reduzir para tolerar a dor é ver seus adversários seguirem em frente e experimentar a solidão dos seus passos e batidas do coração.
Reduzir para completar uma prova é concordar que, naquele dia, é exatamente aquilo que você tem a oferecer e qualquer coisa além daquilo não te pertence.
É concordar que nenhum atleta tem cadeira cativa em pelotões de corrida, de ciclismo ou natação. Ninguém é de um grupo. Você está em um grupo. E deve estar preparado para não estar mais. Porque assim é o esporte. Cíclico e democrático como só ele.

No início, todos alinhados. Altos, baixos, gordos, magros, ricos, pobres. Todos no mesmo lugar e no mesmo momento. E no final, pelo único critério da meritocracia, todos encolunados e ordenados.

Trabalhar todas as sensações que o esporte pode lhe oferecer, é mais que uma dica, uma obrigação.

Hoje eu perdi.

Perdi para minha mente. Perdi para o desconforto. Perdi para uma performance que julguei ser abaixo das minhas expectativas mas que era nada mais do que a minha realidade para o momento. Optei pelo caminho mais rápido e prático. Parei.

Como dito antes, sou o primeiro a me julgar porque respeitar a modalidade que praticamos é aceitar com alegria os louros da vitória mas reconhecer com humildade os espinhos da derrota.

Se nossas redes sociais estão repletas de recordes pessoais, vitórias, trofeus e medalhas, nada mais justo do que compartilhar o ensinamento da derrota.

Hoje foi assim. Amanhã é um novo dia.

E como é pra frente que se olha, em duas semanas estaremos todos lá novamente. Alinhados. No mesmo lugar. Saindo ao mesmo tempo. E quem chegar primeiro vence. E quem não mantiver essa chama que te move a frente acesa, cuidado pois você corre um grande risco de ganhar um belíssimo DNF ao lado do seu nome.

Até a próxima!!!

Wagner Romão
Major do Exército, triatleta, técnico de triathlon, colunista do @30todiadia e do site do Prof Marcio Atalla e comentarista SPORTV de Pentatlo Moderno.


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Juliana Menezes, 43 anos, fisioterapeuta especializada no Método RPG (Reeducação Postural Global), pós-graduada em Anatomia Humana e especialista em Terapia Manual pela ACNT de Sydney / Austrália. Trabalha com coluna vertebral há 19 anos.